8.6.07

Regresso

Depois de um longo interregno, provocado sobretudo pela investigação da minha tese de mestrado e para assumir vários cargos na vida académica, na Universidade do Algarve, regresso aqui. Durante este tempo procedi à sistematização dos materiais e dados recolhidos em arquivos diversos (Alte, Loulé, Faro), à digitalização das várias imagens antigas e mais recentes do GFA e ao estudo das edições em vinil e compact disc, dos temas do Grupo.
Em breve, serão aqui editados vários textos sobre a história do GFA, em particular a partir de entrevistas realizadas a membros fundadores.

25.11.05

CD «Outras Músicas»

Está de saída o 3º volume do catálogo da "Tradição Musical de Loulé". Chama-se «Outras Músicas-Alte/Benafim/Salir» e integra 47 temas musicais das freguesias referidas no título. Essas faixas forma seleccionadas de entre cerca de duas centenas de espécimes musicais recolhidos entre 1981-1987, que após tratamento tecnológico adequado são agora dados a público, numa edição da Câmara M. de Loulé. O CD deve sair antes do fim do ano e será apresentado publicamente em Alte, nos princípios do ano que vem, no Pólo Museológico Cândido Guerreiro e Condes de Alte.
Deixo-vos o texto do booklet do disco, bem como a ficha técnica e o alinhamento das faixas:
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Nota: a faixa 2 pode ser ouvida no FolhadAlte. Vá abaixo e clique em cima do nome da música
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Texto:
O CD que está nas suas mãos é o terceiro volume do catálogo “Tradição Musical de Loulé” que a Câmara Municipal de Loulé edita, como forma de preservação e divulgação da música tradicional presente no seu território.
Após os discos relativos a Querença [Filipa Faísca e Irmãs] e Alte [Velhos da Torre e Amigos] oiçam, agora, outro disco com memórias musicais das freguesias de Alte, Benafim e Salir, a que se deu o nome de Outras Músicas. O termo consubstancia a referência a um conjunto de espécimes musicais tradicionais, inevitavelmente perdidos na voragem do tempo Um tempo de tecnologias, que assiste à destruição dos suportes económicos e culturais que permitiam a criação, a ritualização e a divulgação da cultura popular e em especial da música de tradição oral. Mas um tempo que, ao mesmo tempo e paradoxalmente, permite a sua guarda: a recolha, registo, conservação e divulgação, em condições técnicas rigorosas, desse valioso cofre cultural.
Guardadas durante mais de duas décadas – e sujeitas por isso à constante degradação do seu suporte analógico – as gravações ainda não tinham visto a luz do presente em suporte áudio e numa dimensão pública. Para o efeito foi imprescindível um aturado trabalho de audição, limpeza, tratamento e edição de cada um dos temas seleccionados de forma a torná-los aceitáveis para edição em suporte digital. Este paciente esforço foi realizado pelo Tó Viegas que encarecidamente agradecemos.
Entre os anos de 1981 e 1987, durante vários períodos, percorremos muitos dos montes do barrocal e da beira-serra da freguesia de Alte, território que na altura incluia a área administrativa da actual freguesia de Benafim e alguns montes da freguesia de Salir, neste caso particular procurando tocadores de flauta de cana travessa (vulgo pífaro).
O território da freguesia de Alte sempre foi marcado por uma certa homogeneidade, fruto dos seus condicionalismos económicos et pour cause culturais, dado o peso preponderante do papel da aldeia de Alte, na sua dinâmica freguesial. Daí que locais como Benafim Pequeno, Benafim Grande, Penina e Freixo Verde constituissem objecto de recolha, e consequentemente de divulgação, dos seus valores musicais populares.
A metodologia de recolha obedeceu – como aliás ainda acontece – a um carácter de urgência, devido ao inexorável declíneo das práticas culturais populares e sobretudo pela perda das referências e das memórias musicais nos últimos decénios. Interessava recolher o maior número possível de espécimes musicais e o mais depressa possível. Passados que são cerca de 24 anos das primeiras recolhas, poderemos considerar acertado este princípio, de recolher e adiar para mais tarde o trabalho decisivo de tratamento, sistematização, catalogação e estudo. Sendo agora possível, a partir dos registos conservados em boas condições técnicas, realizar um trabalho científico de estudo deste espólio de mais de 200 temas, recolhidos no eixo entre Fonte Santa, na freguesia de Alte e Freixo Seco, na freguesia de Salir, durante cerca de sete anos.
A maioria dos informantes desses tempos – cantores e músicos com idades compreendidas entre 60 e 80 anos – já feneceram. Hoje lembramos, aqui, essas mulheres e esses homens que graciosa e solidariamente nos ofertaram as canções ao Menino, as janeiras de Natal e de Anos-Bons, os cantos de Reis, as orações das novenas dos terços de Quaresma e as muitas rodas de baile, de ladrão, de enleio, de par no meio e cadeadas.
Maria do Carmo Ganhão, dos Soidos (temas nºs 7, 8, 19, 24, 31 e 44); em especial lhe ouvimos a cantiga de crítica social “As Freiras de Santa Clara” que apenas é conhecida no «Cancioneiro Popular Português» de Michel Giacometti (tema nº 33).
Maria do Carmo, “Carminha”, de Santa Margarida (temas nºs 4, 18 e 30), uma sabedora de muitas histórias.
Manuel “Russo” da Fonte Santa, tocando a sua gaita/harmónica de beiços (flaita no vulgo) nas rodas de baile, acompanhadas pelo canto de Maria Belchior e de outras informantes da aldeia (temas nºs 13, 25 e 43). Uma das informantes entoou um canto de Janeiras (tema nº 20).
Mariana do Rosário e outras informantes de Freixo Verde brindaram-nos com diversas modas de baile de roda (temas nºs 11 e 33 ) e alguns cantos do Natal e dos Reis (temas nºs 16, 37 e 40).
Em busca das melodias pastoris, registámos, ainda, instrumentais em flauta de cana travessa, pelo toque suave e ao mesmo tempo enérgico de José Manuel da aldeia de Freixo Seco (temas nºs 1, 41 e 47), que as aprendeu com um velho mestre do pífaro, José de Sousa, de Salir, registado nos anos 60 do passado século por Michel Giacometti.
No Monte Ruivo registámos as vozes da Dona Leonilde e amigas, sabedoras magistrais dos terços da Quaresma (temas nºs 6, 12, 26, 28 e 46); e ainda de muitos bailes de roda, dos quais damos a ouvir alguns espécimes (temas nºs 5, 21, 29, 35 e 45 ); praticantes exímias dos despiques de roda, ofereceram-nos também alguns exemplos (temas nºs 38 e 39); na aldeia ouvimos ainda um excelente tema de cariz brejeiro e social “O doutor Afonso Costa”, poema e arranjo musical do poeta e músico popular das Sarnadas, Joaquim dos Santos (tema nº 9).
Nas aldeias de Benafim, sobretudo em Benafim Pequeno, registámos as vozes do senhor Lopes, esposa e vizinhos, numa soturnidade religiosa que nos deu a beleza dos temas dos peditórios do Natal (temas nºs 22 e 32 ) e dos Anos-Bons (temas nºs 10 e 34); uma das informantes cantou-nos um baile de roda a solo (tema nº 23).
Na Penina, ouvimos uma interessante versão, a solo, do baile de roda ”Anda lá para diante” (tema nº 15).
Lembro ainda o Ronceiro, perto da aldeia das Sarnadas, onde fomos uma noite cantar as Janeiras às portas das casas. Mal tínhamos iniciado a oração do canto, já uma voz agreste e melodiosa de mulher soava no limiar da porta. Calámo-nos e deixámo-nos envolver no seu doce cantar: Maria Teresa Carrasquinho foi a nossa informante de melodiosos bailes de roda (temas nºs 3, 17 e 27), de cantos de Natal (tema nº 14) e de uma versão verdadeiramente inquietante da Oração das Almas (tema nº 42).
Para finalizar, referimos a presença neste disco da voz de Daniel Vieira: um etnógrafo que aqui dá valor do seu canto numa canção de Janeiras, acompanhada à viola pelo artista plástico Giga (tema nº 2).
A todos os informantes agradecemos, estendendo os agradecimentos àqueles que de uma forma ou de outra colaboraram no trabalho de recolha, estudo, sistematização, divulgação, produção e edição deste disco, que recorda outras músicas da nossa identidade cultural musical.
Agradeço, em especial, à Maria Amália Cabrita e ao Daniel Vieira que, a sós ou comigo, recolheram centenas de espécimes da tradição musical, entre os anos de 1981 e 1987. E ainda a todos os colaboradores pontuais referidos na Ficha Técnica, que contribuiram para as recolhas durante o mesmo período.

Este texto é dedicado à memória de Maria do Carmo Ganhão e de Maria Teresa Carrasquinho

Helder F. Raimundo [Loulé, Outubro de 2005]
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Ficha Técnica:
Edição: Câmara Municipal de Loulé/Divisão de Cultura e Património Histórico, no âmbito do Pólo Museológico Cândido Guerreiro e Condes de Alte (
www.cm-loule.pt)
Concepção do projecto: Helder F. Raimundo
Recolha: Daniel Vieira, Maria Amália Cabrita e Helder F. Raimundo
Colaboração na recolha: Maria Amélia e Maria Isabel Santos (Monte Ruivo), José Cavaco Vieira (Santa Margarida), José Júlio Sardinheiro e Cristina Bravo (Fonte Santa), Maria do Carmo Gregório e Eduarda Gago (Freixo Seco) e ainda Ana Vitória Luís.
Recolhas: aldeias de Alte, Benafim, Benafim Pequeno e Freixo Verde (1981); Soidos, Santa Margarida, Fonte Santa, Ronceiro e Freixo Seco (1982); Penina e Monte Ruivo (1987).
Selecção musical, investigação, sistematização, catálogo e texto: Helder F. Raimundo Misturas e masterização: Tó Viegas
Capa e Imagens: serigrafia e técnicas mistas de Daniel Vieira – série “Músicos populares”
Design gráfico: Zipmix
Agradecimentos: Tiago Lopes
Tiragem: 1000 exemplares/2005
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Faixas:
1. Marinheiro que andas no mar (flauta de cana)
2. Esta noite é de Janeiras (faixa disponível em WMA. Clique no nome para ouvir)
3. Eladina
4. Esta noite é de Janeiras
5. Manjerico e Laranjinha
6. Oração do pobrezinho
7. Triste vida
8. Anos Bons
9. O doutor Afonso Costa
10. Janeiras de Anos Bons
11. Ó que riquiqui
12. Senhora Sant’Ana
13. Eu mandei fazer um trem
14. Anos Bons
15. Anda lá para diante
16. Janeiras de Anos
17. Mariazinha
18. Oração das almas
19. Anda à roda do vapor
20. Esta noite é de Janeiras
21. Palmira
22. Janeiras (peditório)
23. Ó Larinda
24. Anos Bons
25. Matilde levanta as saias
26. A virgem se confessou
27. Marcela
28. Ó virgem santíssima
29. Olha a pombinha, dão solidão
30. Canto de Reis
31. Eu já fui à tua horta
32. Noite de Natal
33. A moda da carranquinha
34. Anos Bons
35. Vai-te embora Antoino
36. As freiras de Santa Clara
37. José calai o menino
38. O meu amor é baixinho (despique)
39. Moda de despique
40. Janeiras: bela aurora
41. Balso rasteiro (flauta de cana)
42. Recordai se estais dormindo
43. Roubaram, roubaram
44. Canto de Reis
45. Manjerico
46. Terço: oração do Calvário
47. Ó moças façam arquinhos (flauta de cana)



18.11.05

Uma compilação de temas do GFA-1998











Booklet do CD «folclore-Algarve» do Grupo Folclórico de Alte, referido no post abaixo.
Clique na imagem para aumentar

A música do Grupo Folclórico de Alte

O Grupo Folclórico de Alte editou, até hoje, vários discos em suporte de vinil (LP's e EP's). Em 1998, a Valentim de Carvalho, aproveitando um conjunto de temas que tinha dado à estampa nos anos 50 e 60, editou um Compact Disc (CD) com 12 faixas a que deu o título de «Folclore- Algarve», designando o autor como sendo o Rancho (aqui erradamente em vez de Grupo) Folclórico de Alte. Essas 12 danças estão hoje disponíveis para audição e download no FolhadAlte, podendo ser encontradas aqui. Para além deste CD, está disponível ainda o CD «Velhos da Torre e Amigos», 2º volume do catálogo "Tradição Musical de Loulé", que a Câmara tem editado, com a minha coordenação. Devo referir que a disponibilidade destes valores da nossa etnografia musical vêm no seguimento de uma conversa com o José Canelas, um dos editores do Folha, que assim presta um inestimável serviço à difusão cultural, já que estes valores não estão disponíveis em mais lado nenhum, nem mesmo no site da CML.
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Nota: em breve virá a público o 3º volume da "Tradição Musical de Loulé", com o CD «Outras Músicas-Alte/Benafim/Salir», o qual contém surpresas muito agradáveis, mas dele falarei noutra ocasião.

7.10.05

Homenagem a antigos membros do Grupo Folclórico

No jantar de aniversário dos 67 anos do Grupo Folclórico de Alte, que decorreu no dia 5 de Outubro, a sua Direcção deliberou homenagear três dos mais antigos membros do Grupo, hoje inactivos. Na celebração foram apresentadas e lidas as suas pequenas biografias que escrevi para o evento e que aqui vos deixo.

Biografia:

Nasceu a 21 de Setembro de 1912, em Alte, e foi criado na aldeia.
Esteve no Seminário de Faro durante três anos, dos 16 aos 19 e fez o exame da 4ª classe em Alte, tendo chegado até à 5ª classe com a dona Maria Bento.
Durante onze anos esteve empregado na Casa do Povo de Alte. Aos 27 anos decidiu rumar a Angola onde se empregou em duas fazendas de sisal. Regressou a Alte quando já tinha 42 anos.
Em 1938 fez parte do grupo informal, de Alte, que dançou no dia 4 de Outubro para o Concurso da Aldeia mais Portuguesa de Portugal. Tinha na altura 26 anos e esteve ao lado de João Gonçalves Esperança, homenageado o ano passado. Poucos anos depois ainda esteve, com muitos outros grupos num desfile em Lisboa, desde Belém até ao Parque Eduardo VII.
Apesar da sua reduzida presença no Grupo, nunca o esqueceu.
Por nós também não o esquecermos, homenageamos hoje o amigo José dos Santos Duarte, mais conhecido por José Gualdino.

Biografia:

No dia do Concurso da Aldeia mais Portuguesa, em 1938, correu as ruas de Alte para ver a azáfama da mostra etnográfica. Era ainda muito jovem para dançar. Tinha 13 anos, e não demorou muito a entrar para o Grupo Folclórico.
Era um bom dançarino nos bailes da aldeia e o facto de trabalhar com José Vieira, na Casa do Povo, apressou a sua entrada.
Era ele que convocava os ensaios para a velha Casa do Povo e lá permanecia entre as 8 da manhã e a meia noite.
Até rumar a Moçambique, em 1951, esteve no Grupo sem faltar um dia, como ele afirma, e percorreu todo o Algarve em festas e bailes.
Esteve várias vezes a representar o casamento no Carnaval de Loulé.
Esteve na comitiva que, durante 15 dias, representou o folclore português em Madrid
e foi lá que resolveu um grande problema do Grupo: mandou o baile em lugar do habitual mandador José do Vale, que tinha regressado a Alte.
Por tudo isto homenageamos hoje o nosso amigo José Januário de Sousa Cavaco, mais conhecido por José da Mata.

Biografia:

Era muito jovem quando posou para uma fotografia com um banjo nas mãos.
Muitos lembram-se dele, no final dos ensaios do Grupo Folclórico, tocando banjo atrás das costas. Era com este instrumento que calcorreava as aldeias e os montes animando muitos bailes.
Quando o Grupo fica sem acordeonista, é nas mãos dele que Vieira deposita um acórdeão que a Casa do Povo tinha adquirido, e desde então homem e instrumento tornaram-se inseparáveis.
Muitos recordam-no carregando a filha Maria de Jesus e o acórdeão numa bicicleta a pedal, subindo ladeiras e descendo veredas.
Durante muito tempo tocou com os amigos José Pereira, Analide, Charrinho e Manuel Rola, mostrando a sua faceta alegre e brejeira, não se separando do seu acórdeão e de um mais célebre biberão.
Como os seus amigos dizem: nunca o víamos, mas ele esteve sempre no Grupo Folclórico.
É assim que homenageamos o nosso amigo Germano Madeira.

4.10.05

4 de Outubro de 1938

O Grupo Folclórico de Alte (GFA) comemora, hoje, 67 anos da sua primeira actuação pública, no Concurso da Aldeia mais Portuguesa de Portugal. As festas são amanhã, com matança de porco e jantar, incluindo homenagem a fundadores do GFA.

4.9.05

O folclore e «O Aldeão»

Uma investigação sobre o Grupo Folclórico de Alte, leva-me a procurar fontes de referência a práticas musicais e coreográficas na aldeia, antes da fundação do Grupo em 1938. Uma das fontes mais importantes é o jornal «O Aldeão», dirigido por João de Deus e editado, entre 1912 e 1913, na aldeia de Alte. Ao pesquisar os arquivos da Junta de Freguesia local verifiquei, mais uma vez, que o jornal «O Aldeão» não é conhecido. Na Junta apenas existe o «Folha de Alte», periódico dirigido por Graça Mira (antigo secretário de João de Deus em «O Aldeão»), entre os anos 1922 e 1934.
Como sem conhecimento não há memória, tempo, talvez, para o Arquivo Histórico da Câmara de Loulé disponibilizar, aos altenses, cópias dos 28 números do seu primeiro jornal. Em debate sobre o tema, a Divisão de Cultura promete colocar no futuro Pólo Museológico de Alte, um conjunto de microfilmes do jornal. Melhor ainda.
Mais tarde, falando com a Dona Lourdes Madeira, directora do actual jornal altense «Ecos da Serra», respondo à sua pergunta sobre se conhecia «O Aldeão» e sobre se João de Deus teria estudos. Lembro que sim, que João de Deus foi seminarista em Faro, que era culto e escrevia bem, que criou à volta dele uma plêiade de jovens republicanos, escrevinhadores no jornal, entre os quais Graça Mira, mais tarde fundador da Folha. Recordo-lhe que, várias vezes, «O Aldeão» noticiou os célebres bailes do Centro Republicano, que duravam até alta madrugada e eram abrilhantados pelo gramofone de José Francisco da Encarnação Madeira, pai da minha interlocutora, da D. Lourdes exactamente. Perguntei-lhe por que razão João de Deus não era reconhecido em Alte, não tinha o seu nome numa rua da aldeia, por exemplo, e a senhora disse-me que ele era muito crítico, falava mal de todos. Compreendo que a ausência de consensualidade não ajudou João de Deus a obter, na sua terra, a devida recompensa por ter ajudado a fundar um Centro Escolar e Republicano que foi uma verdadeira escola política e cultural da aldeia.
Mais tarde, quando retorno ao arquivo da Junta de Freguesia, encontro o livro de inscrições de sócios do referido Centro Republicano. Entusiasmo-me, mas resolvo deixar para outro dia a pesquisa dos nomes dos sócios. A paixão nem sempre é boa conselheira. Mas outra novidade ainda me esperava. Quando volto a falar com D. Lourdes sobre Graça Mira ela diz-me que ele se suicidara, em Alte, no dia 1 de Maio de 1939, “escolhendo” um dia em que a aldeia estava cheia de visitantes. Dia fatídico este.
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[publicado no jornal barlavento em 28 de Julho de 2005. Clicar aqui para ler online]